Era domingo, ainda eram 8 horas da manhã, e o pátio do CEP Saúde de Planaltina, em Brasília, começava a se encher para o 12º Encontro da Família CEMA. Na mesa de boas-vindas, um vaso amarelo de girassóis sinalizava o que viria pela frente: um dia preparado com cuidado para receber famílias inteiras.

Avós pelas mãos de netos, casais com filhos pequenos, jovens em grupos. Aos poucos, foram chegando para o encontro anual organizado pelo Centro Espírita Maria Madalena que, neste 24 de maio de 2026, reuniu cerca de 200 pessoas em torno de um lema bonito: União: A Melodia do Amor em Família.

A epígrafe escolhida para guiar o dia, retirada da questão 322 de O Consolador, já dava o tom do que estava por acontecer.

“No caminho dos homens é ainda o amor que preside a todas as atividades da existência em família e em sociedade.”

— Emmanuel, O Consolador, q. 322

Uma manhã que começou com passe e café

O passe magnético abriu o dia. Entre as 8h e 8h30, as primeiras famílias passavam pela equipe de atendimento espiritual antes mesmo de qualquer atividade formal. Foi assim, em silêncio e acolhimento, que o encontro começou.

Logo depois, veio o tempo da Alegria Cristã e do café da manhã. Bandejas de pães, frutas, café e suco se espalhavam pelas mesas, e a conversa começava a fluir entre famílias que nem sempre se conhecem fora do espaço da Casa.

Quem caminhava pelos corredores percebia o cuidado nos detalhes: flores grandes feitas à mão decoravam a entrada, e cartazes anunciavam a palavra que daria o tom do encontro inteiro: família.

Cordel e teatro: a Melodia do Amor ganhou cena

Às 9 horas, o pátio se transformou em palco. O Momento Artístico abriu com um cordel teatralizado chamado A Sinfonia do Lar, no ritmo familiar de Asa Branca. Em versos que arrancaram risos e suspiros, o narrador comparou a família a uma orquestra que, sem regência, vira confusão. E lembrou, pela voz de Emmanuel, que o lar é o laboratório de almas pelo Pai abençoado.

Logo em seguida, atrizes, narradora e dois DJs subiram ao palco para apresentar a peça Melodia do Amor em Família. A história começava com uma pessoa cansada, chegando em casa depois de um dia de brigas, ligando a caixinha de som para esquecer. A rádio sintonizada respondia ao seu chamado: a “Rádio Harmonia”, onde até a bagunça vira música.

Cena a cena, a peça mostrou o que muitas famílias vivem em silêncio. A correria das manhãs, a discussão que sobe de tom, o silêncio pesado que vem depois e, por fim, a tentativa frágil mas verdadeira de recomeçar. No abraço final, quando mãe, tia e filha pediram desculpas umas às outras, a sala fez silêncio.

A locutora resumiu o que todos estavam sentindo.

“O amor tem o poder de reorganizar qualquer melodia.”

— Trecho da peça Melodia do Amor em Família

12º Encontro da Família CEMA reuniu três gerações em paralelo

Por volta das 9h35, as famílias se dividiram em turmas paralelas: adultos em um grupo, jovens em outro, crianças num terceiro. Cada um recebeu uma adaptação do mesmo conteúdo, pensada para a sua linguagem e seu repertório.

Para os adultos, o roteiro foi conduzido em cinco etapas que se complementavam: contraste vibratório, psicosfera, lei de sintonia, Evangelho como tecnologia e síntese final. Cada etapa tinha um propósito muito claro, e nenhuma foi pensada como mera teoria.

O conceito L.A.R.: Liberdade, Afeto e Respeito

Logo na segunda etapa, o instrutor desenhou no quadro um círculo central e quatro setas saindo dele. Era o lar e seus integrantes, conectados por aquilo que cada um “emite” para o ambiente. A analogia foi simples: assim como o cigarro contamina o ar fechado, a raiva ou a ansiedade contaminam o clima da casa.

Mas foi nesse momento que apareceu a chave do encontro: o conceito L.A.R., um acrônimo que reúne Liberdade, Afeto e Respeito. Inspirado pela leitura do psicólogo Rossandro Klinjey, ele propõe que a qualidade do lar não está no formato da família, mas no que pulsa dentro dela.

Como lembra Joanna de Ângelis, em obra psicografada por Divaldo Pereira Franco:

a família constitui o alicerce onde se inicia a vivência da fraternidade universal (S.O.S. Família).

O que se cultiva em casa, em outras palavras, alcança o mundo inteiro.

A Dinâmica do Espelhamento

Na terceira etapa, as cadeiras viraram duplas. Cada par recebeu um papel com uma frase típica de conflito: você nunca me escuta, ninguém me valoriza, ninguém me obedece. Uma pessoa deveria “desafinar” e a outra responder em outro tom, sereno, sem atacar nem se defender.

Os três minutos de exercício pareceram longos. Manter a calma quando o outro reclama em tom irritado não é fácil. Mas era exatamente esse o ponto: lembrar que nenhum de nós controla a nota do outro. Controlamos apenas a nossa, o nosso fluido, o nosso estado interior.

Sobre essa atitude, Allan Kardec já havia escrito no Capítulo IX do Evangelho Segundo o Espiritismo.

“Jesus faz da brandura, da moderação, da mansuetude, da afabilidade e da paciência uma lei.”
— Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. IX

O Evangelho como tecnologia do lar

A quarta etapa propôs um exercício prático. Em pequenos grupos, os participantes estudaram quatro casos fictícios mas familiares: a casa onde todos falam em “som de metralhadora”, o filho que se sente como um “violino de corda única”, a família presa no “eco do passado” das mágoas antigas, e o lar silencioso da “melodia fantasma”, onde ninguém briga mas também ninguém conversa.

A pergunta nos grupos era a mesma para todos: onde, em cada caso, a partitura do Evangelho tinha sido esquecida? E como ela poderia voltar?

A resposta apareceu na simulação do Culto do Evangelho no Lar, prática espírita que reúne a família ao redor de uma jarra com água, da leitura de um trecho do Evangelho, do comentário sincero e da prece final. Não é cerimônia religiosa. É, como disse o instrutor, uma tecnologia vibracional de reorganização do ambiente doméstico.

Enquanto isso, em outras salas, jovens e crianças mergulhavam em versões adaptadas dos mesmos conceitos, conduzidas pela evangelização infantil e juvenil da Casa, com brincadeiras, símbolos musicais e linguagem visual.

CEMAD, prece e o silêncio que uniu 200 vozes

Às 11h15, todos retornaram ao espaço comum para o Momento Artístico do CEMAD, o Departamento Musical do CEMA. As vozes se ergueram e, por um momento, a metáfora da manhã virou literalidade: o lar era mesmo uma orquestra, e ali estávamos todos cantando a mesma melodia.

Em seguida veio a quinta etapa da aula adulta, agora reunida. Cada participante recebeu um pequeno papel em formato de nota musical. A pergunta era simples: qual instrumento você tem sido em casa? O tambor barulhento, o violino triste, o triângulo esquecido, a flauta ansiosa, o piano harmônico. No verso do papel, cada um anotou uma única ação prática para começar a afinar esse instrumento a partir daquele dia.

Não houve compartilhamento obrigatório. Aquele papel não era para ninguém ler. Era um compromisso entre cada pessoa e o seu próprio espírito.

A prece coletiva fechou esse momento. Por alguns minutos, cerca de 200 pessoas ficaram em silêncio, em comunhão. Quem estava lá sabe que aquele silêncio dizia muito.

Almoço, abraços e a equipe que fez tudo acontecer

Por volta do meio-dia, o cheiro de comida quente chamou todos para o refeitório. Mesas com toalhas claras se enfileiravam pelo pátio coberto, e crianças, jovens e adultos finalmente se reencontravam depois das aulas paralelas. Pais comentavam o que aprenderam, filhos contavam o que viveram nas salas infantis, avós sorriam para netos.

Na cozinha, uma foto registrou o que muitos não viram: a equipe de voluntárias e voluntários, com toucas, aventais e sorrisos, parando por um instante o trabalho intenso para um registro coletivo. Eram 10h07 da manhã, e ali já se preparava o almoço de mais de duzentas pessoas.

Equipe da cozinha. Equipe do credenciamento. Atrizes, narradora e DJs do palco. Coral e instrumentistas do CEMAD. Evangelizadores de crianças e jovens. Equipe de passe. Equipe de limpeza. Cada uma dessas frentes carregou um pedaço do dia. Como ensina Emmanuel, é nessas tarefas simples e silenciosas que mora a verdadeira oficina de aperfeiçoamento.

O 12º Encontro da Família CEMA continua: o que ficou e o que vem por aí

O 12º Encontro da Família CEMA terminou oficialmente às 12h15, com a prece de encerramento e a confraternização do almoço. Mas, quem participou sabe, o encontro continua. Continua em cada papel de nota musical guardado em um bolso. Continua em cada conversa de família que vai começar diferente nos próximos dias. Continua, principalmente, na decisão silenciosa de afinar a própria nota antes de cobrar a do outro.

A Casa segue firme em sua tradição. Em pouco mais de 65 anos de história, o CEMA aprendeu que cuidar da família é cuidar da semente da fraternidade universal, princípio também sustentado pela Área da Família da Federação Espírita Brasileira, referência institucional do movimento espírita.

Se você participou e quer reviver, ou se não pôde estar presente e quer estar na próxima edição, acompanhe as outras atividades realizadas pelo CEMA no site e nas redes sociais oficiais da Casa. O 13º Encontro da Família já começa a ser preparado.

“Que sejamos um só coração, afinados no amor.”
— João 17:21