São oito horas de um domingo comum em Planaltina. Enquanto boa parte da cidade ainda dorme, um grupo se reúne numa sala do Centro Espírita Maria Madalena, ouve uma música, faz uma prece e sai a pé pelo bairro. É a Campanha de Fraternidade Auta de Souza, e ninguém ali vai pedir nada para si.

O trabalho acontece no CEMA há 42 anos. Os caravaneiros mais antigos costumam dizer que nem a chuva forte conseguiu impedir uma saída.

A campanha completou 42 anos na Casa em 24 de agosto, e a comemoração acontece no domingo seguinte, dia 30. Antes da festa, vale entender o que exatamente essas pessoas fazem, de onde veio esse trabalho e por que quem participa costuma afirmar que recebeu muito mais do que entregou.

O que é a Campanha de Fraternidade Auta de Souza

A Campanha de Fraternidade Auta de Souza é uma tarefa regular de casas espíritas e postos de assistência, realizada aos domingos pela manhã. Os trabalhadores se chamam caravaneiros. Eles visitam os lares do bairro em duplas, sempre no mesmo horário, sempre nas mesmas ruas.

A semana da distribuição e a semana da coleta

O trabalho se organiza em duas semanas que se alternam. Numa delas, a caravana entrega uma carta-mensagem que explica quem são, por que estão ali e quando voltarão. Na outra, a caravana retorna e recolhe o que cada família quis oferecer.

Antes de sair às ruas, o grupo passa por uma preparação. Há música para harmonizar o ambiente, a leitura de uma página do Pão Nosso, obra que muitas famílias usam também no Evangelho no Lar, o estudo do Evangelho e a Agenda da Reforma Íntima. Só depois formam-se as duplas, faz-se a prece e canta-se a Alegria Cristã.

O detalhe que muita gente estranha ao conhecer o trabalho é este: nada é estipulado. Não há lista, não há valor mínimo, não há cobrança. Um quilo de arroz, um agasalho usado, uma peça de roupa das crianças, tudo é recebido com a mesma alegria. E quando a família não tem o que dar, a visita cumpriu seu papel do mesmo jeito, porque a mensagem ficou.

É aí que mora o ponto que costuma passar despercebido, e que já tratamos aqui ao falar do papel do amor e da caridade nas campanhas espíritas. A campanha não existe apenas para arrecadar. Ela existe para levar o Evangelho até a porta de quem talvez nunca fosse procurá-lo. Alimenta-se o corpo, e alimenta-se também a alma. Kardec já havia registrado essa amplitude ao comentar o sentido que Jesus dava à palavra caridade:

“A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola, abrange todas as relações em que nos achamos com os nossos semelhantes, sejam eles nossos inferiores, nossos iguais, ou nossos superiores.”
(Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 886, comentário)

De um quilo de arroz a uma caravana nacional

A história começa modesta, como quase toda história que dura. Nos primeiros tempos do movimento espírita brasileiro já existia a chamada Campanha do Quilo: voluntários que iam de casa em casa recolhendo um quilo de alimento para formar cestas e entregar às famílias em dificuldade.

O quilo de alimento que deu origem à Campanha de Fraternidade Auta de Souza

Um dos que organizavam esse trabalho foi Oli de Castro. Ao lado dele, num centro espírita, atuava um jovem militar nascido em Poconé, no Mato Grosso, em 1918. Seu nome era Nympho de Paula Corrêa, e é a ele que devemos a campanha como a conhecemos hoje.

Em junho de 1952, Nympho se mudou para São Paulo e passou a frequentar a Federação Espírita paulista. Foi ali que o incomodou uma percepção simples e desconfortável: a mensagem espírita continuava trancada dentro das casas espíritas. Quem já frequentava, ouvia. Quem mais precisava ouvir, não entrava.

A ideia que ele levou aos amigos era quase óbvia depois de dita. Se a caravana já ia até a porta das famílias para recolher donativos, por que não levar junto uma mensagem de consolo? A cesta continuaria. Só que agora ela viajaria acompanhada.

Em 3 de fevereiro de 1953, às oito da noite, na sede da Federação Espírita de São Paulo, Nympho apresentou a proposta a um pequeno grupo. Um mês depois, em 3 de março, a primeira caravana saiu às ruas do bairro de Pinheiros. A Campanha do Quilo tinha virado Campanha de Fraternidade.

Quem foi Auta de Souza, a poetisa que deu nome à caravana

Retrato de Auta de Souza, patrona da Campanha de Fraternidade, apoiado sobre um livro de poemas aberto

Faltava ainda o nome que o trabalho carrega até hoje, e ele veio de uma história que os caravaneiros nunca cansam de contar.

Auta de Souza nasceu em Macaíba, no Rio Grande do Norte, em 12 de setembro de 1876. Perdeu os pais ainda criança para a tuberculose e foi criada pela avó. Levada para Recife, recebeu formação sólida, aprendeu idiomas, leu os grandes autores e começou a escrever versos muito cedo.

Publicou um único livro em vida, Horto, em 1900, com prefácio de Olavo Bilac. No ano seguinte, aos 24 anos, desencarnou em Natal, vencida pela mesma doença que levara seus pais. Luís da Câmara Cascudo a chamaria de a maior poetisa mística do Brasil. Décadas depois, seus versos voltariam pela mediunidade de Chico Xavier, no Parnaso de Além-Túmulo, cuja primeira edição saiu em 1932, pela Federação Espírita Brasileira.

A jovem que os caravaneiros não reconheciam

Mas a ligação de Auta de Souza com a caravana começou por um susto. Nos primeiros tempos do trabalho, uma médium vidente do grupo passou a se inquietar. Domingo após domingo, ela via uma jovem entrar na sala da campanha trazendo consigo grande número de Espíritos sofredores, deixá-los ali e sair para buscar outros.

Para ela, aquilo só podia ser obsessão. Nympho discordava, e o argumento dele era simples: um trabalho que lê o Evangelho, estuda, ora e canta não estaria sendo perturbado por Espíritos infelizes. Duas consultas foram enviadas a Chico Xavier, e as duas voltaram com a mesma orientação de seguir em frente. Como a inquietação continuava, decidiram escrever uma carta detalhando tudo.

A resposta mudou a compreensão do grupo. A jovem era Auta de Souza. E os Espíritos que ela conduzia não estavam ali para atrapalhar. Estavam ali para aprender. Eram os irmãos esquecidos das preces, os que ficavam nos becos e nas vielas, e ela os levava para que se evangelizassem observando os caravaneiros.

Ela apontava para o grupo e mostrava a cada um deles: aquele pai de família deixou a manhã de domingo com os filhos para estar aqui; aquela moça deixou os estudos; aquele senhor veio mesmo sentindo dores. O que parecia perturbação era, na verdade, um trabalho silencioso de esclarecimento. Depois de novas mensagens, entre elas de Bezerra de Menezes, a campanha recebeu o nome que carrega desde então.

Desde aquele dia, os caravaneiros repetem uma frase que resume tudo: quando a caravana da Terra sai do portão, ela nunca sai sozinha.

CONCAFRAS: quando as caravanas do Brasil inteiro se encontram

O trabalho se espalhou rápido, e em pouco tempo havia campanhas em dezenas de cidades. Foi para dar unidade e fôlego a esse crescimento que o próprio Nympho criou, em março de 1957, a primeira concentração das campanhas, realizada em Ribeirão Preto.

Ela se tornaria a CONCAFRAS-PSE, sigla de Confraternização das Campanhas de Fraternidade Auta de Souza e Promoção Social Espírita. Acontece todos os anos desde então, no período do Carnaval, sem interrupção.

Uma característica costuma surpreender quem ouve falar dela pela primeira vez. A CONCAFRAS não é um órgão, não tem sede e não tem presidência fixa. Ela é literalmente uma caravana: a cada ano, uma instituição espírita diferente recebe o encontro e assume a organização.

Durante alguns dias, caravaneiros de todo o Brasil e do exterior se reúnem para estudar, trocar experiências entre casas e realizar trabalhos assistenciais na cidade que os recebe. Por onde a confraternização passa, costuma deixar campanhas novas fundadas e campanhas antigas revigoradas, às centenas.

A edição mais recente, a 70ª, aconteceu em Cuiabá, entre 14 e 17 de fevereiro de 2026, com o tema “Ide e Curai” e cerca de cinco mil participantes. Quando os caravaneiros do CEMA saem numa manhã de domingo, portanto, eles fazem parte de um movimento que atravessa sete décadas e o país inteiro.

Como a Campanha de Fraternidade Auta de Souza chegou a Planaltina

Nympho não se contentou em ver o trabalho funcionando. Ele decidiu procurar pessoalmente outras casas espíritas para expandir a caravana, e uma delas foi o CEMA, casa espírita fundada em Planaltina em 1961.

Quem o recebeu foi Murilo Brito, que viria a ser um dos fundadores da campanha na Casa. A ele Nympho explicou o objetivo do trabalho, o funcionamento das duas semanas e, principalmente, que a finalidade não se resumia a recursos materiais. O acolhimento foi imediato, sem objeção. Era agosto de 1984.

O relato de Murilo, colhido recentemente por telefone, traz uma observação que vale a pena guardar. A campanha não apenas se instalou: ela fortaleceu as outras atividades da Casa. Trouxe trabalhadores novos, aproximou famílias e foi se espalhando de bairro em bairro.

Rua de Planaltina onde a Campanha de Fraternidade Auta de Souza atua há 42 anos

E trouxe também as memórias que hoje divertem e emocionam os mais antigos. Naquele tempo, muitas casas não tinham numeração, e a caravana precisava reencontrá-las na semana seguinte. A solução foi improvisada e afetuosa: marcavam o endereço pela árvore da frente, pelo formato da janela, pelo desenho da porta.

Houve também o caravaneiro que chegou avisando que ficaria apenas nos domingos de coleta, para dar uma ajuda ao grupo, formado quase todo por mulheres. Foi ficando, foi ficando, e acabou se tornando um dos trabalhadores mais dedicados que a campanha teve na Casa. E houve a chuva forte que, segundo os relatos, virava garoa ou cessava justamente na hora da saída.

O episódio mais instrutivo, porém, aconteceu num bairro sem asfalto. Alguns acharam melhor não levar a caravana até lá, com receio de constranger famílias que talvez não tivessem nada a oferecer. Foram assim mesmo. E foi ali, conta Murilo, que a caravana teve o melhor acolhimento de sua história. As pessoas pararam para ouvir, receberam com carinho e doaram mesmo sem ter.

O que a caravana devolve a quem serve

Se você perguntar a um caravaneiro o que ele leva às famílias, ele vai falar da cesta e da mensagem. Se perguntar o que ele traz de volta, a conversa muda de tom e entra num terreno que também interessa a quem estuda o que a prática do bem faz por quem a pratica.

O primeiro aprendizado costuma ser o mais desconfortável. Bater num portão para pedir por outra pessoa educa o orgulho de um jeito que poucas experiências educam. Muita gente não sabe pedir para si mesma, e descobre, na campanha, que consegue pedir pelo próximo. É o mesmo movimento que faz a doação transformar quem doa.

O segundo é a empatia, exercitada semanalmente. Acordar cedo num domingo, tocar a campainha de alguém que talvez estivesse dormindo e reconhecer, em silêncio, que aquele incômodo tem uma razão do outro lado da cidade.

Doação deixada no portão para a Campanha de Fraternidade Auta de Souza

O terceiro é o mais difícil. Nem toda porta se abre com simpatia. Os caravaneiros contam, sem drama, que já ouviram desaforos e já receberam recados para não voltar. A resposta do trabalho é sempre a mesma: voltar na semana seguinte, com serenidade. E não é raro que a pessoa que os maltratou esteja no portão, esperando, com a sacolinha na mão.

A caridade moral, segundo a codificação

Esse retorno tranquilo tem nome na codificação, o conjunto das obras organizadas por Allan Kardec. É a caridade moral, aquela que não custa nada em dinheiro e custa quase tudo em paciência:

“A caridade moral consiste em se suportarem umas às outras as criaturas e é o que menos fazeis nesse mundo inferior, onde vos achais, por agora, encarnados.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII, Instruções dos Espíritos)

É também o que os Espíritos responderam a Kardec quando ele perguntou qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como Jesus a entendia:

“Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”
(Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 886)

Isso não é discurso de ocasião. Nos depoimentos que os próprios caravaneiros do CEMA gravaram sobre o que a tarefa representa para eles, uma palavra se repete mais do que qualquer outra: humildade.

Eles falam em sair dos lares despojados de vaidade e de orgulho. Falam em aprender a conviver com o mundo batendo de porta em porta. Falam que muitas vezes não há doação nenhuma e a visita valeu do mesmo jeito, porque a mensagem ficou. E falam de algo que não esperavam encontrar numa manhã de domingo: a compreensão serena de que a vida continua.

A caridade moral, portanto, não se pratica apenas na rua. Ela começa dentro de casa, com os filhos, com os irmãos, com os vizinhos, e leva o tempo que precisa para florescer.

Doação deixada no portão para a Campanha de Fraternidade Auta de Souza

Conclusão

Quarenta e dois anos são muitos domingos. São muitas campainhas tocadas, muitas cestas montadas, muitas portas abertas e algumas fechadas. Nada disso apareceria numa estatística de impacto social. É o heroísmo oculto das pequenas ações, e talvez seja exatamente esse o ponto.

A Campanha de Fraternidade Auta de Souza mostra que a caridade não é um gesto extraordinário reservado a pessoas extraordinárias. Ela é uma rotina simples, repetida com constância, que vai transformando devagar quem a pratica. Como registra o Evangelho de Mateus, no capítulo 25, tudo o que fazemos ao menor dos nossos irmãos, é ao Cristo que fazemos.

A campanha completou 42 anos na Casa em 24 de agosto, e o CEMA comemora a data neste domingo, 30, com a participação das crianças na caravana. Se você nunca viu esse trabalho de perto, esse é o convite: venha ao 42º aniversário da Campanha de Fraternidade, às 8h, na Quadra 02, Lote 16, Vila Vicentina, em Planaltina. Não é preciso experiência, inscrição nem conhecimento prévio de Espiritismo.

E se este domingo não for possível, guarde o endereço mesmo assim. A caravana sai todos os domingos, às 8h, há 42 anos.