Em 3 de outubro de 1804 nasceu em Lyon, na França, um menino chamado Hippolyte Léon Denizard Rivail. O mundo o conheceria mais tarde por outro nome, Allan Kardec, mas antes de qualquer outra coisa ele foi professor. Neste outubro, quando o movimento espírita celebra os 222 anos do seu nascimento, vale olhar para Allan Kardec educador, e fazer uma pergunta que raramente se faz: o que o jeito de ensinar daquele professor tem a ver com o jeito como o Espiritismo pensa até hoje?

Outubro, mês de Kardec

Em muitas casas espíritas do Brasil, outubro ganhou um apelido carinhoso: o mês de Kardec. Não há lei que o defina assim. É uma tradição do próprio movimento, que aproveita a data do nascimento para palestras, estudos e semanas temáticas dedicadas ao Codificador.

Costuma-se lembrar, nessas ocasiões, a obra que ele deixou: cinco livros publicados entre 1857 e 1868, a Revista Espírita, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Tudo isso é justo. Mas há uma chave que ajuda a entender o conjunto e que costuma ficar em segundo plano. Kardec não chegou aos fenômenos espíritas como um místico à procura de revelações. Chegou como um educador experiente, com décadas de sala de aula e um método já formado.

É essa história que vamos contar.

Antes de Allan Kardec, o professor Rivail

Ainda menino, Rivail foi mandado para Yverdon, na Suíça, estudar no instituto de Johann Heinrich Pestalozzi, um dos educadores mais influentes da Europa. Foi aluno aplicado e, com o tempo, tornou-se colaborador e divulgador do método do mestre.

Em 1822 fixou-se em Paris. Dois anos depois publicou seu primeiro livro didático, um curso prático e teórico de aritmética concebido segundo o método de Pestalozzi. Vieram depois obras de gramática, de aritmética e de pedagogia. Fundou e dirigiu na capital francesa um instituto de ensino, que funcionou até 1840.

Em 1828, apresentou um Plano proposto para melhoramento da instrução pública. Não era homem de ensinar só em sua própria escola: pensava a educação de um país inteiro.

Em 1832 casou-se com Amélie Boudet, também professora, que seria sua companheira de trabalho pelo resto da vida. Quando o Espiritismo entrou em sua história, Rivail tinha cinquenta anos e um nome respeitado como autor de livros escolares. Era, em tudo, um homem de método.

O que Pestalozzi ensinou ao menino de Lyon

Para entender o Kardec que viria, é preciso entender o que ele aprendeu em Yverdon. Pestalozzi defendia que a criança aprende observando, não decorando. Que o ensino deve partir do concreto e do conhecido para chegar ao abstrato. Que educar é formar a pessoa inteira, a cabeça, o coração e as mãos, e não apenas encher a memória de fórmulas.

Havia ainda um princípio moral por trás do método: o aluno não é um recipiente passivo. Ele pensa, compara e tira conclusões. O bom professor não impõe a verdade; conduz o raciocínio até que o aluno a encontre.

Guarde esses princípios. Eles vão reaparecer, quase palavra por palavra, trinta anos depois, num campo que Pestalozzi jamais imaginou.

O cético diante das mesas que falavam

O próprio Kardec contou como tudo começou, num texto publicado depois de sua desencarnação em Obras Póstumas:

“Foi em 1854 que pela primeira vez ouvi falar das mesas girantes.” (Obras Póstumas, 2ª parte, “A minha primeira iniciação no Espiritismo”)

Quem lhe contou foi um conhecido, o magnetizador Fortier. Rivail achou possível que um fluido fizesse mesas se moverem. Mas, quando ouviu que elas também respondiam a perguntas, a reação foi a de um cientista de seu tempo:

“Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir” (Obras Póstumas, 2ª parte, cap. I)

O homem que organizaria o Espiritismo começou, portanto, como cético. Só em maio de 1855, convidado por uma pessoa de caráter “grave, frio e calmo”, foi assistir aos fenômenos numa casa de Paris. Viu mesas que giravam e respondiam, em condições que não deixavam lugar a dúvida. O ambiente era de brincadeira e curiosidade, mas o professor enxergou além:

“Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.” (Obras Póstumas, 2ª parte, cap. I)

Onde os outros viam passatempo, ele viu uma lei da Natureza ainda desconhecida. E decidiu estudá-la do único modo que sabia.

Observar, comparar e julgar: o método que virou doutrina

O relato de Kardec sobre como conduziu esse estudo é a melhor prova de que o professor nunca saiu de cena:

“Apliquei a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências” (Obras Póstumas, 2ª parte, cap. I)

E acrescenta que foi assim que procedeu sempre em seus trabalhos anteriores, “desde a idade de 15 a 16 anos”. Ou seja, desde Yverdon.

Nas reuniões que passou a frequentar, os assistentes faziam perguntas frívolas sobre a vida material e o futuro. Rivail mudou o rumo das sessões. Levava para cada uma delas “uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas”. Foram essas perguntas, desenvolvidas e completadas, que formaram a base de O Livro dos Espíritos, publicado em 18 de abril de 1857. O formato de perguntas e respostas da obra fundamental do Espiritismo nasceu da mão de um professor.

Outra lição de Yverdon aparece na maneira como ele tratou os Espíritos. Kardec percebeu logo que eles são as almas dos homens, sem sabedoria plena, e que a opinião de cada um vale como opinião pessoal. Por isso escreveu que os Espíritos foram para ele, “do menor ao maior, meios de me informar e não reveladores predestinados”. E resumiu a regra de toda a sua vida:

“Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui.” (Obras Póstumas, 2ª parte, cap. I)

Anos depois, em A Gênese, ele descreveria o mesmo caminho como o da própria Doutrina: o Espiritismo procede “aplicando o método experimental”, e “a teoria é que veio subseqüentemente explicar e resumir os fatos” (cap. I, item 14). Primeiro a observação, depois a conclusão. Pestalozzi teria reconhecido o aluno.

Por que Rivail assinou Allan Kardec

Rivail tinha nome feito como autor de livros escolares e quis que a nova obra fosse julgada por si mesma, sem o peso do professor conhecido. Adotou então o nome Allan Kardec. Segundo o relato preservado por seus biógrafos, o nome lhe foi indicado por um Espírito como o de uma existência anterior, vivida entre os antigos gauleses. O detalhe importa menos que o gesto: o autor preferiu sair da frente para que a Doutrina falasse.

Allan Kardec educador até na forma de ensinar o Espiritismo

Se ainda restasse dúvida sobre o educador por trás do Codificador, bastaria ler o capítulo “Do método”, em O Livro dos Médiuns. Ali Kardec escreve, literalmente, uma pequena aula sobre como ensinar Espiritismo. E começa exigindo seriedade de quem quer aprender:

“Quem, pois, seriamente queira conhecê-lo deve, como primeira condição, dispor-se a um estudo sério e persuadir-se de que ele não pode, como nenhuma outra ciência, ser aprendido a brincar.” (O Livro dos Médiuns, 1ª parte, cap. III, item 18)

Logo depois vem uma frase que poderia estar em qualquer manual de Pestalozzi:

“Todo ensino metódico tem que partir do conhecido para o desconhecido.” (O Livro dos Médiuns, 1ª parte, cap. III, item 19)

Por isso, diz ele, não adianta falar de Espíritos a quem ainda não admite que tem uma alma. É começar pelo fim. Kardec também desconfiava de quem queria convencer pelo espetáculo. Declarou que “o verdadeiro Espiritismo jamais se dará em espetáculo, nem subirá ao tablado das feiras”, e que o melhor método de ensino espírita consiste em se dirigir “antes à razão do que aos olhos” (item 31).

E, como bom professor, deixou até um currículo. No item 35 do mesmo capítulo, indica a ordem em que suas obras deveriam ser lidas por quem estava começando: primeiro O que é o Espiritismo?, uma brochura curta que apresenta o conjunto e responde às objeções mais comuns; depois O Livro dos Espíritos, com a doutrina completa; em seguida O Livro dos Médiuns, para a parte prática; e a Revista Espírita, como coletânea de fatos e estudos.

Não queria seguidores deslumbrados. Queria alunos que compreendessem.

Uma doutrina que aceita ser corrigida

Talvez o traço mais surpreendente do professor Rivail seja a humildade intelectual. Na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, ele explica que os princípios da Doutrina se apoiam na concordância do ensino dos Espíritos, recebido por muitos médiuns em lugares diferentes, e não na autoridade de um homem:

“Não nos arvoramos, absolutamente, em árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: ‘Crede em tal coisa, porque somos nós que vo-lo dizemos.'” (O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, II)

Na mesma página, reconhece que a própria opinião “pode ser verdadeira ou falsa”. Poucos fundadores de qualquer escola de pensamento escreveram algo assim sobre si mesmos.

Em A Gênese, esse espírito vira princípio da própria Doutrina:

“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto.” (A Gênese, cap. I, item 55)

É daqui que nasce a ideia de fé raciocinada, que o Espiritismo tanto valoriza. No mesmo livro, Kardec escreve que “para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender”, e conclui: “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 7). Uma crença que se deixa examinar. Uma doutrina que se estuda, e não que se decora.

Kardec desencarnou em Paris em 31 de março de 1869, depois de doze anos de trabalho intenso. Deixou uma obra organizada como se organiza um bom curso. O Livro dos Espíritos (1857) traz os fundamentos. O Livro dos Médiuns (1861) cuida da prática. O Evangelho segundo o Espiritismo (1864) aplica os ensinos de Jesus à vida moral. O Céu e o Inferno (1865) examina a justiça divina e o destino das almas. A Gênese (1868) trata da origem do mundo e dos chamados milagres à luz das leis naturais.

Mais do que livros, deixou um jeito de pensar.

O melhor presente para Allan Kardec educador: estudar

Há muitas formas de homenagear Allan Kardec educador neste outubro. A mais coerente com quem ele foi é a mais simples: estudar. Não por obrigação, mas pelo gosto de compreender. Entre as instruções reunidas em O Evangelho segundo o Espiritismo, há uma que resume o programa inteiro:

“Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI, item 5)

Amar e instruir-se. O coração e a cabeça, como queria o velho mestre de Yverdon. E as mãos também, porque o estudo espírita não termina no livro. A mesma obra que pede instrução afirma que “fora da caridade não há salvação” (cap. XV). O conhecimento que não vira gesto de bondade fica pela metade.

Talvez seja essa a lição mais pestalozziana de toda a Codificação: educar a pessoa inteira. A cabeça que compreende as leis da vida, o coração que aprende a amar e as mãos que servem. Se você nunca leu Kardec, comece pelo começo, do conhecido para o desconhecido, como ele mesmo ensinou. Se já leu, releia com olhos de aluno: o professor sempre tem algo novo a mostrar.

No CEMA, estudar faz parte da rotina da Casa, e a porta está aberta a quem quiser chegar. As palestras públicas acontecem todos os domingos, às 19h, em Planaltina (DF), e ficam gravadas no nosso canal do YouTube. Venha celebrar os 222 anos do professor do jeito que ele mais gostaria: aprendendo.