Em ano de eleição, as conversas mudam de temperatura. O almoço de família fica tenso, o grupo de mensagens vira arena, e muita gente boa chega ao domingo do voto cansada, desconfiada e com o coração dividido. Diante disso, é natural que o espírita se pergunte como se posicionar. Afinal, qual é a relação entre espiritismo e política? Devemos nos afastar desse assunto para preservar a paz interior, ou participar dele faz parte do nosso compromisso com o mundo?

A resposta da Doutrina Espírita é mais serena do que o barulho das campanhas sugere. Ela não manda ninguém fugir da política, nem pede que alguém entregue a ela a esperança que só o próprio coração pode cumprir. Aqui não falaremos de candidatos nem de partidos. Falaremos de algo anterior a tudo isso: de como a justiça dos homens e a justiça de Deus se encontram dentro de cada um de nós.

Dai a César o que é de César: a resposta que desarmou uma armadilha

Há quase dois mil anos, perguntaram a Jesus se era lícito pagar o imposto cobrado por Roma. A pergunta não era inocente. O domínio romano pesava sobre a Judeia, e o tributo tinha virado motivo de disputa acalorada. Allan Kardec, ao comentar a passagem, explica o que estava em jogo:

“Havia nessa pergunta uma armadilha. Contavam os que a formularam poder, conforme a resposta, excitar contra ele a autoridade romana, ou os judeus dissidentes.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI, item 6)

Se dissesse “paguem”, Jesus seria visto como aliado do dominador. Se dissesse “não paguem”, seria denunciado como agitador. Era, em miniatura, a mesma armadilha que a polarização nos arma hoje: escolha um lado ou será tratado como inimigo dos dois.

Jesus pediu uma moeda, perguntou de quem era a imagem gravada nela e respondeu: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Não fugiu da pergunta, nem entrou no jogo de quem a fez. Deu, nas palavras de Kardec, “uma lição de justiça”: a cada um o que lhe é devido.

Kardec vai além. Ele lembra que a sentença não deve ser lida de modo restrito, como se falasse apenas de impostos. O princípio

“estende-se mesmo aos deveres contraídos para com a família, a sociedade, a autoridade, tanto quanto para com os indivíduos em geral.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI, item 7)

Dar a César o que é de César inclui cumprir nossos deveres de cidadãos. Dar a Deus o que é de Deus inclui não entregar a nenhum César aquilo que pertence apenas à consciência.

O Messias que não veio fundar partido

Muitos, no tempo de Jesus, esperavam um libertador político: alguém que expulsasse os romanos e restaurasse pela força a glória do seu povo. Jesus frustrou essa expectativa. Diante de Pilatos, deixou clara a natureza da sua missão:

“Meu reino não é deste mundo.” (João 18:36, em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. II, item 1)

Parte da rejeição que ele sofreu nasceu exatamente daí. Quem esperava um Messias de espada encontrou um Mestre que falava de perdão, de humildade e de amor aos inimigos. Comentando a realeza de Jesus, Kardec mostra que existe um poder mais duradouro que o dos tronos. A realeza terrestre “é joguete das vicissitudes”, enquanto “a realeza moral se prolonga e mantém o seu poder” (cap. II, item 4).

Vale um exercício honesto: imaginar como seria se ele voltasse hoje. Talvez, mesmo entre os que se dizem cristãos, alguém o interpelasse: “Mestre, o senhor não vai se posicionar sobre o que acontece no país? Não vai dizer de que lado está?”. E talvez ele respondesse de novo com uma moeda na mão.

Não por indiferença ao sofrimento do povo, que ele conhecia como ninguém. Mas porque veio operar uma revolução mais funda, a revolução das almas. Quando o ser humano muda, tudo em volta dele muda também, inclusive a política.

Espiritismo e política: participar é lei natural

Seria um erro concluir que, por isso, o espírita deve virar as costas para a vida pública. A codificação diz o contrário. Em O Livro dos Espíritos, a vida em sociedade aparece como lei da Natureza:

“Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade.” (O Livro dos Espíritos, q. 766)

Na questão seguinte, os Espíritos afirmam que o isolamento absoluto contraria essa lei, porque “todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente” (q. 767). A política, no sentido nobre da palavra, é uma das formas pelas quais uma sociedade decide como vai se auxiliar: como cuidará dos mais frágeis, como educará suas crianças, como repartirá seus recursos.

Há ainda uma questão que merece ser relida por todo espírita em época de eleição:

“Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?”

“Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.” (O Livro dos Espíritos, q. 932)

Omitir-se, portanto, não é neutralidade. É deixar o espaço livre. Informar-se com cuidado, votar com consciência e acompanhar quem foi eleito são atos de caridade coletiva, que alcançam pessoas que nunca conheceremos.

A neutralidade que a doutrina pede é de outra natureza: é a da instituição, não a do cidadão. No regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Kardec deixou escrito: “São defesas nela as questões políticas, de controvérsia religiosa e de economia social” (O Livro dos Médiuns, cap. XXX, art. 1º). A casa espírita não é palanque, não indica candidato e não fala em nome de nenhum partido. A própria lei eleitoral brasileira, aliás, proíbe propaganda em templos e locais religiosos.

Fora dali, o espírita vota, opina e participa como qualquer cidadão, com a responsabilidade de quem sabe que responderá pelos próprios atos.

Por que nenhum sistema resolve sozinho

Se a política é tão importante, por que ela nunca parece suficiente? Basta olhar o mundo com honestidade. Em nações capitalistas e socialistas, sob governos de direita e de esquerda, encontramos violência, corrupção, solidão, sofrimento psíquico e famílias desfeitas. Se algum modelo fosse capaz, por si só, de curar o ser humano, já teríamos um país sem dor para apontar como exemplo. Não temos.

A codificação explica o motivo com uma clareza que atravessa o tempo. Perguntados sobre como reconhecer uma civilização completa, os Espíritos respondem:

“Reconhecê-lo-eis pelo desenvolvimento moral. […] não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram, e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã.” (O Livro dos Espíritos, q. 793)

E apontam a raiz desses vícios: o egoísmo, onde “está a verdadeira chaga da sociedade” (q. 913). Nenhuma lei, sozinha, arranca essa raiz. Ela pode conter seus efeitos, e isso já é muito. Mas o egoísmo troca de roupa conforme o regime e reaparece onde quer que o coração humano continue o mesmo.

Em A Gênese, Kardec observa que o progresso da inteligência, por maior que seja, não basta para regenerar a humanidade: “Enquanto o orgulho e o egoísmo o dominarem, o homem se servirá da sua inteligência e dos seus conhecimentos para satisfazer às suas paixões e aos seus interesses pessoais” (cap. XVIII, item 18). E conclui:

“Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na Terra.” (A Gênese, cap. XVIII, item 19)

Leis mudam, o coração é que sustenta

Isso não significa que as instituições não importem. Importam, e a doutrina diz isso com todas as letras. Ao tratar do egoísmo, os Espíritos afirmam que “necessário é que se reformem as instituições humanas que o entretêm e excitam”, e acrescentam: “Isso depende da educação” (q. 914). Em outra passagem, pedem que o princípio da caridade e da fraternidade sirva “de base às instituições sociais” (q. 917).

A Gênese reconhece o valor das reformas úteis que já surgem no mundo, como leis penais mais humanas e instituições de proteção aos mais fracos. Mas faz uma ressalva decisiva: “Falta, porém, a essas reformas uma base […]; falta uma predisposição moral mais generalizada” (cap. XVIII, item 21).

A boa lei precisa de gente boa para aplicá-la, fiscalizá-la e, sobretudo, vivê-la. Sem isso, a melhor reforma envelhece no papel.

A justiça dos homens e a justiça de Deus

A justiça humana é necessária. Sem leis, tribunais e governos, a convivência seria impossível. Mas ela é também imperfeita e passageira, e a codificação não esconde isso:

“Nem sempre, pois, é acorde com a justiça o direito que os homens estabelecem.” (O Livro dos Espíritos, q. 875-a)

Na mesma resposta, os Espíritos lembram que direitos hoje considerados monstruosos já pareceram justos e naturais em outras épocas. Pouco adiante, completam que os direitos naturais “são eternos”, enquanto “os que o homem estabeleceu perecem com as suas instituições” (q. 878-a). Governos passam, cargos passam, instituições passam. O Espírito permanece.

Quantas vezes, ao longo da história, pessoas se apoiaram no que a lei permitia para perseguir, excluir e condenar? A legalidade nunca foi garantia de bondade. A justiça humana também não enxerga o íntimo: duas pessoas podem cumprir a mesma pena, e uma sair transformada muito antes do prazo enquanto a outra sai pior do que entrou. Sentença cumprida não é sinônimo de regeneração.

A justiça de Deus funciona em outra frequência. Ela não quer esmagar quem erra, quer educá-lo. Deus não castiga por vingança. Pela lei de causa e efeito, oferece a cada filho as experiências de que precisa para crescer, e o que faz, em última análise, é salvar seus filhos de si mesmos.

A pedra que ninguém atirou

A cena da mulher surpreendida em adultério resume essa diferença. A lei daquele tempo previa o apedrejamento. Jesus não negou a falta, mas também não a entregou à multidão. Disse apenas: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.” E, quando todos se afastaram: “Também eu não te condenarei. Vai-te e de futuro não tornes a pecar.” (João 8:3-11, em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, item 12)

Não houve demonstração de poder, nem aprovação do erro. Houve um olhar que enxergava, por trás da personalidade passageira, um Espírito eterno capaz de recomeçar.

Comentando a passagem, Kardec faz uma observação preciosa para tempos de campanha. Não julgar não quer dizer silenciar diante do mal, que às vezes é dever reprimir. O que não tem desculpa é criticar com o propósito de desacreditar a pessoa. E arremata:

“Aos olhos de Deus, uma única autoridade legítima existe: a que se apóia no exemplo que dá do bem.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, item 13)

Vale lembrar essa frase ao ler notícias, ao repassar mensagens e ao conversar com quem pensa diferente de nós.

A política do Cristo: a reforma íntima que muda tudo em volta

Se a Doutrina Espírita defende alguma política, é a mesma de Jesus: a transformação do elemento primário de toda sociedade, que é o ser humano. Nenhum decreto torna alguém mais honesto, mais paciente ou mais solidário. Mas cada pessoa que muda por dentro leva essa mudança para o trabalho, para a família, para a rua, para as urnas e, um dia, para os cargos que vier a ocupar.

Kardec descreve com esperança aonde esse caminho leva:

“Quando praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, e ele próprio também será melhor.” (O Livro dos Espíritos, comentário à q. 930)

É por isso que, quando o assunto é espiritismo e política, a Doutrina Espírita não levanta bandeira partidária. Não por desprezo à política, mas porque o seu compromisso é com algo que nenhuma bandeira consegue carregar. Os movimentos humanos são passageiros; a reforma íntima atravessa encarnações.

E ela serve aos dois lados da urna. Para quem vota, o critério mais seguro continua sendo o que Jesus ensinou e os Espíritos repetiram: “Queira cada um para os outros o que quereria para si mesmo” (q. 876). Para quem é eleito, O Evangelho segundo o Espiritismo traça o retrato do homem de bem investido de autoridade:

“Se a ordem social colocou sob o seu mando outros homens, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus; usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e não para os esmagar com o seu orgulho.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 3)

A mudança pode parecer lenta demais. Os Espíritos sabiam disso e deixaram um consolo realista: se o Espiritismo conseguisse “corrigir num homem um único defeito que fosse”, já o teria ajudado a dar um passo (q. 800). É assim que a transformação coletiva começa: um coração de cada vez.

Espiritismo e política no domingo e na segunda-feira

Chegamos, então, ao dia do voto com algumas certezas simples. Votar é um dever cívico e também moral, e merece ser feito com informação, reflexão e prece, não com raiva. Quem pensa diferente de nós continua sendo nosso irmão antes, durante e depois da eleição. Nenhum resultado autoriza o desprezo, a humilhação ou a mentira, venha de que lado vier.

Na segunda-feira, qualquer que seja o resultado, o trabalho mais importante continuará exatamente onde sempre esteve: dentro de nós. Podemos orar pelo país e por todos os que forem eleitos, para que exerçam o cargo com justiça. Podemos acompanhar, cobrar e colaborar. E podemos, sobretudo, seguir fazendo a parte que nenhum governo fará por nós.

No fim, pensar espiritismo e política é pensar nisto: a justiça dos homens é necessária e continuará se aperfeiçoando. A justiça de Deus é soberana e nunca perde de vista nenhum dos seus filhos. Entre uma e outra está a nossa consciência, que é onde a verdadeira política do Cristo acontece.

Se você quiser refletir sobre esses temas à luz do Evangelho, as palestras públicas do CEMA acontecem todos os domingos, às 19h, em Planaltina (DF), e ficam gravadas no nosso canal do YouTube. As portas estão abertas para todos, pense como pensar.