Em 24 de junho de 2026, o Centro Espírita Maria Madalena completa 65 anos de portas abertas em Planaltina. Não é uma data qualquer no calendário da Casa: é o aniversário de uma sementeira que começou pequena, no fundo de um quintal da Vila Vicentina, e que hoje sustenta oito departamentos a serviço da comunidade. Pensar nos 65 anos do CEMA é, antes de tudo, voltar ao gesto simples de um lavrador chamado José Alves dos Santos, o nosso Zé Paulista, e à coragem de uma família que atravessou três estados para chegar até aqui.
Este é um artigo de gratidão. Mas também é um convite para que cada um de nós, frequentadores e simpatizantes, se reconheça parte dessa história que continua sendo escrita a cada domingo de palestra, a cada criança evangelizada, a cada visitante recebido com um sorriso.
65 anos de uma Casa que começou com um sonho
Há datas que pedem festa, e há datas que pedem silêncio. O aniversário do CEMA pede as duas coisas ao mesmo tempo. Festa, porque seis décadas e meia de trabalho voluntário não cabem em qualquer comemoração. Silêncio, porque parte dessa história foi feita por gente que nunca aparece em ata, mas que carrega cadeira, prepara sopa, recebe quem chega chorando e ouve quem precisa falar.
A Casa de hoje atende centenas de pessoas por semana entre passes, palestras, atendimentos virtuais e atividades de assistência social. São oito departamentos articulados, frequentadores fiéis e voluntários que muitas vezes saem do trabalho direto para um plantão noturno. Tudo isso começou com um homem, uma mulher e uma promessa silenciosa de servir.

O nome do nosso blog não é por acaso. Sementeira de Luz é exatamente o que Zé Paulista fez ao chegar em Planaltina: abriu um pequeno espaço, plantou as primeiras sementes e confiou na colheita. Como ensina Emmanuel pela pena de Chico Xavier:
“Permanece atento para com as obrigações da sementeira, todavia, não se inquieta pela colheita, porque sabe que o campo e a planta, o sol e a chuva, a água e o vento pertencem ao Eterno Doador” (Pão Nosso, cap. 82).
É essa confiança que melhor resume a história desses 65 anos.
Quem foi Zé Paulista, o lavrador que virou farol espírita
José Alves dos Santos nasceu em 29 de fevereiro de 1908, em Barra Mansa, no Rio de Janeiro. Filho de uma terra de trabalho rude, cresceu entre roças, animais e a fé simples do interior. Em 1927, casou-se com Francisca Gomes da Silva, a nossa D. Chiquinha, parceira de mais de seis décadas de jornada espiritual. Daquele casamento vieram dez filhos e mais de oitenta descendentes, alguns dos quais ainda hoje servem ao CEMA.

A vida do casal foi marcada por mudanças. Nos anos 1930, partiram para Garças, no interior de São Paulo, em busca de uma vida melhor. Lá plantaram arroz, criaram os primeiros oito filhos e enfrentaram, como tantas famílias da época, o peso de trabalhar a terra. Foi em meio à lida do dia a dia que Zé Paulista começou a perceber os primeiros sinais da mediunidade.
Em 1948, a família se mudou para a Colônia Agrícola Nacional de Goiás, em Ceres. Foi ali, em 2 de fevereiro de 1950, que ele construiu o primeiro Centro Espírita Maria Madalena, ainda em terras goianas. Antes mesmo de Brasília existir como capital, Zé Paulista já tinha plantado a primeira muda da Casa que conhecemos hoje.


Quatro anos depois, em 1954, ele fez uma visita decisiva a Jerônimo Candinho, em Palmelo, importante referência mediúnica da região. Aquela conversa, segundo a memória da família, aprofundou a sua compreensão da mediunidade como serviço. Não era mais uma sensibilidade a ser administrada: era um compromisso a ser honrado.
Por trás do dirigente havia, antes de tudo, um casal de fé simples e generosa. D. Chiquinha guardou a vida toda uma devoção terna a Santa Luzia. Zé Paulista e D. Chiquinha também tomavam, de quando em quando, o caminho de Aparecida do Norte. O Espiritismo, que abraçaram de coração, nunca os fez romper com as raízes católicas que traziam no peito, nem desgostar delas: ao contrário, ensinou-os a respeitar e a buscar o respeito de todas as crenças.
Esse traço não era apenas temperamento gentil: era doutrina vivida. O Evangelho Segundo o Espiritismo, logo na Introdução, descreve a moral do Cristo como
“o terreno onde todos os cultos podem se reunir, a bandeira sob a qual todos podem se abrigar, quaisquer que sejam suas crenças, pois ele jamais foi pretexto de disputas religiosas” (Allan Kardec, Introdução, item I).
Zé Paulista e D. Chiquinha aprenderam essa lição muito difícil ainda para a maioria de nós: a verdadeira fé acolhe e aproxima, não separa.
Da Colônia Agrícola a Planaltina, o caminho até a Vila Vicentina
A história nos lembra que casas espíritas nascem onde há necessidade. E Planaltina, nos anos 1950, era exatamente isso: uma cidade em crescimento, com gente vindo de todo canto do Brasil para ajudar a erguer a nova capital. Foi para esse chão que a família Santos se mudou em 5 de janeiro de 1958.



Os primeiros meses foram dedicados a construir a vida material. Em julho daquele mesmo ano, Zé Paulista ergueu uma residência e um pequeno salão na Quadra 11, Lote 29, da Vila Vicentina. Não havia placa, não havia diretoria formal, não havia estatuto. Havia uma sala, alguns bancos e a disposição de atender quem chegasse.
Em outubro de 1958, começaram as atividades públicas. Passes e água fluidificada foram os primeiros serviços oferecidos, e a notícia correu rápido pela vizinhança. Quem precisava de uma palavra de conforto, de um amparo espiritual ou simplesmente de alguém para escutar, sabia onde bater. A Casa, antes mesmo de ter nome de batismo, já era casa de muita gente.

Foi preciso quase três anos de plantio silencioso até que a Casa se tornasse oficialmente o Centro Espírita Maria Madalena. Em 24 de junho de 1961, com mais de sessenta pessoas presentes, o CEMA foi aberto formalmente em Planaltina. Aquela primeira diretoria, capitaneada por Zé Paulista como presidente, contou com Tubertino Gomes na vice, Luiz Nunes Ferraz na primeira secretaria e nomes como Felix Morais Cardoso, Gumercino Vieira Rocha, Oswaldo Ramos, Francisca dos Santos Silva, Gerônimo Pires de Souza e Dorcelina Gomes compondo a estrutura inicial.
Dois anos depois, em abril de 1963, foi concluída a sede definitiva na Quadra 02, Lote 16, da mesma Vila Vicentina. É lá que estamos até hoje.
As décadas que ergueram a Casa atual
Os anos 1960 e 1970 foram de expansão silenciosa. Os atendimentos cresceram, dezenas de pessoas chegavam toda semana em busca de orientação, e Zé Paulista, mesmo já em idade avançada, atendia até altas horas da noite. A memória de quem conviveu com ele registra um homem que parecia não conhecer cansaço quando o assunto era servir.
Os anos 1980 trouxeram a primeira grande renovação. Em dezembro de 1980, Orlando Alves dos Santos, filho de Zé Paulista, assumiu a presidência. Foi sob sua gestão que a Casa se reorganizou em departamentos, sistematizou cursos doutrinários, inaugurou a Casa da Sopa Emmanuel e adotou a Campanha de Fraternidade Auta de Souza. Surgiu também o posto de assistência no Buritis II, mais tarde transformado em CECAP, e o Teatro Espírita Luzes da Esperança, o querido TELUZES.


Na década seguinte, os anos 1990, a expansão social ganhou mais alcance. Foi criado o Posto de Assistência Auta de Souza, na Vila Nossa Senhora de Fátima, que viria a se tornar o CESAS. A Casa começava a perceber que sua missão não cabia apenas dentro do salão de palestras: ela transbordava para os bairros, para as escolas, para os bolsões de necessidade da região. Os 65 anos do CEMA são também a soma silenciosa dessas frentes que foram nascendo, década após década, sem nunca substituir o que veio antes.


A cada nova gestão, novos departamentos foram acrescentados ao tronco principal. A evangelização infantil, juvenil e de adultos ganhou estrutura própria. As atividades mediúnicas se organizaram com regularidade. O estudo doutrinário virou referência regional. E, mesmo com todas essas mudanças, a essência permaneceu a mesma que Zé Paulista plantou em 1958: caridade na rotina, fraternidade na prática.
A passagem do bastão, presidências que sustentaram o trabalho
Em 65 anos, dez gestões sustentaram a Casa. É bonito olhar essa linha do tempo e perceber como cada presidência acrescentou alguma coisa, sem nunca desfazer o que veio antes:
- José Alves dos Santos (Zé Paulista) — 1961 a 1980
- Orlando Alves dos Santos — 1981 a 1986
- Maria Fernandes dos Santos (Tia Vera) — 1986 a 1987
- Roberto Lino do Nascimento — 1988 a 1992
- Renan Caputo de Faria — 1993 a 1995
- José Murilo Cruz Brito — 1996 a 2001
- Halvécio Machado Paiva — 2002 a 2004
- Elizeu Pereira de Carvalho — 2005 a 2006
- Elizabete Maria Gasparotto — 2007 a 2022
- Aury Cleide Parente — 2023 em diante
Três mulheres já presidiram o CEMA, e nenhuma delas chegou ali por acaso. Tia Vera, Elizabete Gasparotto e Aury Cleide Parente, em particular, viveram décadas na lida da Casa antes de assumir a cadeira maior. Os quinze anos da Elizabete deram à Casa estabilidade institucional. E a gestão atual, presidida por Aury Cleide Parente e tendo Elizabete Gasparotto como vice no quadriênio 2026 a 2028, mostra que essa continuidade segue viva.
Há, na pessoa de Aury Cleide Parente, um detalhe que dá a esse arco um sentido ainda mais bonito: ela é neta dos fundadores, neta de Zé Paulista e de D. Chiquinha. A sementeira que o avô plantou no fundo de um quintal da Vila Vicentina é hoje cuidada pela neta, justamente no 65º aniversário da Casa. Não como herança de família, mas como herança de trabalho: a mesma seara, lavrada por outras mãos, na continuidade fraterna que sempre marcou o CEMA e que nunca deixou de pertencer a todos nós.

A passagem do bastão sempre foi um exercício fraterno aqui. Não há cisão, não há disputa. Há, isso sim, o reconhecimento de que a Casa pertence a Deus e nós somos, todos, trabalhadores temporários da seara. Em 65 anos do CEMA, essa foi a regra silenciosa que sustentou cada gestão.
Uma coincidência que nos lembra: a Casa nunca esteve só
Há um detalhe na história do CEMA que ainda emociona quem conhece. Zé Paulista desencarnou em 22 de junho de 1985. Dois dias antes do 24º aniversário da Casa que ele havia fundado.
Quem é espírita sabe que não acreditamos em acasos. E talvez essa coincidência seja uma das mais belas lições que o fundador nos deixou. Ele partiu na véspera da festa, como quem queria comemorar do outro lado, com aqueles que o aguardavam para o trabalho continuar. Dez anos depois, em 17 de setembro de 1995, D. Chiquinha também desencarnou, completando o reencontro do casal no plano espiritual.

A doutrina nos ensina, em O Livro dos Espíritos, que a vida social é natural e que
“Deus fez o homem para viver em sociedade” (questão 766).
Vida em comum aqui não termina com a desencarnação. A Casa continua sendo casa para Zé Paulista, para D. Chiquinha e para tantos outros voluntários que já passaram pelo plano espiritual e que, segundo o que sentimos nas reuniões de prece e nas mensagens mediúnicas, seguem trabalhando conosco.
E talvez resida aqui a lição mais serena dos 65 anos do CEMA: a obra é sempre maior do que aquilo que os olhos alcançam. O que se vê na sede da Vila Vicentina, os bancos, os departamentos, as palestras de domingo, é apenas a parte visível de um projeto longo e duradouro, audacioso para a sua época, traçado com cuidado muito antes de virar realidade. A lei do trabalho e do progresso não conhece pausa, e a vida não se interrompe na desencarnação: ela continua, na mesma direção.
Ver a neta cuidando da obra do avô é enxergar esse fio que não se rompe. A semente plantada em 1958 segue brotando em frutos que vão muito além do que se imagina, alcançando pessoas que nunca souberam o nome de Zé Paulista, mas que receberam o conforto que ele ajudou a semear. A Casa nunca esteve só porque a obra do bem nunca termina: ela apenas muda de mãos, de plano e de tempo, sempre seguindo viva.
O CEMA de hoje, oito departamentos a serviço da comunidade
Quem entra hoje na sede da Quadra 02 encontra uma estrutura bem diferente daquela de 1961, mas o espírito é o mesmo. A gestão se organiza em oito departamentos, cada um cuidando de uma frente da missão da Casa:
- DED (Estudos Doutrinários): formação contínua e cursos sistematizados
- DDA (Divulgação e Artes): teatro, corais e harmonização
- DIJ (Infância e Juventude): evangelização das novas gerações
- DAS (Assistência Social): apoio direto a famílias em vulnerabilidade
- DEPAE (Assistência Espiritual): passes, mensagens mediúnicas, vibração
- DEPRO (Promoções e Eventos): Brechó Solidário e ações da Casa
- DECOM (Comunicação e Multimídia): site, blog, redes sociais e estúdio
- DEMAPA (Manutenção Patrimonial): cuidado com a estrutura física
O DECOM, fundado em 19 de abril de 2025, é o departamento mais novo. Ele nasceu da necessidade de centralizar a comunicação da Casa, do site ao canal Radar CEMA no WhatsApp, da transmissão das palestras às postagens nas redes sociais. É também a equipe que assina este blog Sementeira de Luz que você está lendo agora.
Além dos departamentos, a Casa conta com presidência, secretaria, tesouraria, conselho diretor e conselho fiscal, todos compostos por voluntários cadastrados. Nenhum exercício na Casa é remunerado, e essa é uma regra que vem desde Zé Paulista:
“fora da caridade não há salvação” (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XV)
Não é frase decorativa. É princípio operacional.
As atividades regulares são muitas e variadas. Palestras públicas semanais, mensagens mediúnicas, Evangelho da Semana, Agenda Reforma Íntima, Vibração Virtual, Culto do Evangelho no Lar, evangelização infantil, juvenil e adulta, Brechó Solidário e a Livraria CEMA, com obras espíritas para toda a família. Cada atividade é uma forma diferente de continuar a sementeira que Zé Paulista plantou.
Para os próximos 65 anos, o convite continua
Aniversários servem para olhar para trás, mas servem também, e principalmente, para olhar adiante. O que queremos plantar para os próximos 65 anos?
Allan Kardec nos ensina, no capítulo XIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, a “fazer o bem sem ostentação”. Talvez seja esse o convite mais sincero que possamos fazer aos próximos anos da Casa: continuar fazendo, sem alarde, sem holofotes, sem grandes anúncios. Apenas continuar.
Se você frequenta o CEMA, sabe do que estamos falando. Se você nunca veio, está convidado. O endereço continua sendo o mesmo desde 1963: Quadra 02, Lote 16, Vila Vicentina, Planaltina, Brasília. As portas se abrem todas as semanas, em diferentes horários, para diferentes atividades. Você pode acompanhar a programação pelo nosso canal Radar CEMA no WhatsApp ou pelo nosso site.
Se você é voluntário, obrigado. Você é a continuação viva de Zé Paulista. Se você é frequentador, obrigado por fazer da Casa um lugar habitado. Se você é leitor deste blog, obrigado por permitir que a sementeira chegue até onde nossas mãos não alcançam.
Que os próximos 65 anos venham. A semente que foi plantada em 1958, oficializada em 1961, regada por dez gestões e por incontáveis pares de mãos voluntárias, continua brotando. E continuará, enquanto houver quem se disponha a cuidar dela.
Feliz aniversário, CEMA. Que a colheita siga sendo do Senhor, e que a nossa parte seja sempre semear. Os 65 anos do CEMA não são um ponto de chegada: são um marco no meio do caminho.
Reviva os 65 anos em palavra e doutrina
Se este artigo tocou o seu coração, há um convite que combina com ele. No dia 21 de junho de 2026, em palestra alusiva a estes 65 anos, Murilo Brito conduziu a reflexão “CEMA 65 Anos: A Escola de Nossas Almas”. Assim como aqui, ela volta às raízes da fundação de 1961, ao livro-ata, a Zé Paulista e a D. Chiquinha, mas vai além: mostra, com base em Emmanuel, por que o centro espírita é a escola mais importante da nossa alma, ao mesmo tempo educandário, lar de solidariedade, templo e hospital. Vale assistir ou reler com calma.
Saiba mais sobre a história do CEMA na página Nossa História
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