Em diversos momentos da vida, especialmente no início de um novo ano, somos convidados a refletir sobre quem somos, para onde estamos caminhando e qual é, afinal, a nossa vocação e propósito?
Na parábola de Jesus, narrada pelo evangelista Mateus (25:14-30) e que também é foco de estudo em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVI, encontramos uma história emblemática em que um senhor, antes de uma viagem, reúne três servos e confia a cada um deles uma quantia monetária, os chamados talentos: o que recebeu cinco e ganhou mais cinco; o que recebeu dois e ganhou outros dois; e o que recebeu um, que, com medo, o enterrou. A resposta do senhor aos dois primeiros é idêntica: “Bom e fiel servidor, compartilha da alegria do teu senhor.” Ao terceiro, porém, dirige palavras duras: “Servidor mau e preguiçoso”.
Por um lado, é compreensível o pensamento do servo que recebeu apenas uma unidade monetária. Com receio de perder o único talento que lhe fora confiado, optou por guardá-lo. Poderia não multiplicar, mas devolveria sem prejuízos ao senhor. Qual, então, a sua — e a nossa — surpresa ao vê-lo categorizado como servidor mau e preguiçoso, em vez de receber um olhar mais compreensivo de seu senhor.
A parábola, num primeiro momento, causa-nos estranheza, e certamente esse era um dos intuitos de Jesus, pois a estranheza, por vezes, nos leva à reflexão. É improvável que imaginemos que o comportamento do senhor da parábola — que claramente representa uma referência a Deus — seja injusto ou frio para com seus filhos. Muitas vezes, é preciso transcender a interpretação literal e alcançar os aspectos espirituais das parábolas do Cristo, para que elas encontrem explicação não apenas em nossa razão, mas, sobretudo, em nossa consciência e em nossos sentimentos.
Dois mil anos depois, vivemos um tempo de profundas transformações sociais. O período pós-pandemia intensificou o isolamento, reduziu o contato humano e alterou hábitos antes considerados naturais. No contexto espírita, isso também se refletiu na diminuição da presença física nas casas religiosas, exigindo uma reflexão sincera sobre nosso compromisso com a vivência coletiva. Afinal, qual é o propósito da existência corporal sem o intercâmbio ativo entre nós?
A partir das reflexões de Emmanuel, especialmente na obra Pensamento e Vida, aprendemos que a vida é uma grande cadeia de existências interligadas. A lei da solidariedade nos ensina que ninguém está isolado no universo e que cada escolha individual impacta o todo. É salutar compreender que convergimos para um caminho comum e que, embora diferentes uns dos outros, dotados de nossas individualidades, caminhamos — com variações que dependem de nossas próprias escolhas — para um fim que representa um estado de felicidade plena, em conformidade com princípios universais e com os ditames da própria consciência.
Nesse contexto, surge naturalmente a pergunta: e a nossa vocação? Quais são os talentos depositados em nossas mãos? Onde devemos multiplicar esse tesouro que, diferentemente da parábola, não é feito de ouro nem está sujeito à deterioração?
Emmanuel apresenta a vocação como a soma das experiências que trazemos de outras existências. Nossas inclinações, talentos e habilidades não surgem ao acaso, mas são construções do espírito ao longo do tempo. Vocação não se limita à profissão ou ao destaque social; pode manifestar-se no cuidado com a família, no serviço anônimo, na arte, na educação ou no amparo ao próximo.
“O nosso pensamento cria a vida que procuramos, através do reflexo de nós mesmos, até que nos identifiquemos, um dia, no curso dos milênios, com a Sabedoria Infinita e com o Infinito Amor, que constituem o Pensamento e a Vida de Nosso Pai.”
Pensamento e Vida – Emmanuel – Introdução

Qual é a força do pensamento?
Nesta obra, o espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, apresenta reflexões profundas sobre como os pensamentos moldam nossa vida e destino. Com linguagem simples e acessível, o autor espiritual mostra que somos herdeiros das experiências do passado, mas que podemos redirecionar nossas escolhas para alcançar a verdadeira felicidade.
A parábola dos talentos esclarece que Deus confia recursos a todos, esperando que sejam utilizados. O ensinamento é claro: é preferível errar tentando acertar do que enterrar os talentos por medo. O crescimento espiritual acontece na ação, no aprendizado e na correção de rumos.
O mau uso dos talentos ocorre quando eles são transformados em instrumentos de poder, vaidade ou dominação. Toda habilidade recebida tem como finalidade o bem coletivo. Quando utilizada apenas para benefício próprio, afasta-se de sua função espiritual.
Para cumprir nossa vocação, Emmanuel destaca diversos atributos, dos quais três merecem especial atenção: a vontade, que governa nossas ações; a fé, entendida como confiança ativa na sabedoria divina; e a associação, pois ninguém realiza sua missão sozinho. A evolução é sempre um esforço conjunto.
“A vocação é a soma dos reflexos da experiência que trazemos de outras vidas.”
Pensamento e Vida – Emmanuel – cap XVI
Mesmo com dois mil anos de distância, a pergunta de Jesus ecoa em nossas consciências: o que temos feito com os recursos que recebemos da vida? Cada talento desenvolvido no bem transforma-se em patrimônio espiritual imperecível. A verdadeira riqueza não está no acúmulo material, mas nas conquistas morais que levaremos conosco.
Independentemente da área do nosso chamado — seja uma profissão, uma atividade além das obrigações formais do mundo, um talento para promover melhorias aos outros ou uma força interior para transformar a nós mesmos — Jesus espera que sigamos conscientes de nossa vocação, trabalhando com humildade, perseverança e amor, certos de que Deus confia em cada um de nós.
No dia 11 de janeiro de 2026, Thiago Mourão realizou no CEMA – Centro Espírita Maria Madalena a palestra “Vocação e Propósito”, aprofundando essas reflexões à luz da Doutrina Espírita. Abaixo, você pode conferir a íntegra da palestra. Aproveitamos também para convidar você e sua família a participarem das palestras públicas do CEMA, realizadas todos os domingos, às 19h, com participação presencial ou online, fortalecendo juntos o estudo, a convivência e o aprendizado espiritual.




