Data
domingo, 06 de setembro de 2026 · 19h00
Modalidade
Presencial e ao vivo no YouTube
No mês em que o mundo volta os olhos para a prevenção do suicídio, a palestrante Antônia Nery propõe uma inversão de perspectiva: em vez de falar sobre a morte, falar sobre a vida. A Doutrina Espírita, lembra ela, ensina que ninguém chega ao mundo por acaso. Antes de reencarnar, cada espírito participou do próprio planejamento e assumiu, diante da vida, um compromisso de ir até o fim — apesar das dificuldades, apesar dos conflitos, apesar das dores previstas no caminho. Desistir nunca esteve entre as opções combinadas.
É a partir dessa certeza que a palestra desenvolve o tema do autoamor. Amar-se, aqui, não tem qualquer parentesco com egoísmo: o egoísta retém tudo para si, enquanto quem se ama aprende justamente a soltar. Soltar a culpa, soltar a autocrítica que corrói, soltar a convicção silenciosa de não merecer afeto. A parábola do monge e do ladrão, narrada logo no início do encontro, traduz essa ideia com clareza rara — por mais forte que seja quem tenta nos resgatar, ninguém consegue nos erguer enquanto estivermos agarrados à nossa própria pedra.
A partir daí, a palestra distingue com cuidado dois conceitos frequentemente confundidos. A autoestima é a avaliação que fazemos de nós mesmos, uma qualidade que oscila conforme crenças, emoções e comportamentos. O autoamor é um sentimento mais profundo e mais estável: estima, dignidade e respeito por si, sustentados pelo autoconhecimento, pelo perdão próprio, pelo estabelecimento de limites saudáveis e pelo cuidado contínuo com o corpo e com as emoções.
Um dos pontos mais delicados do encontro trata das feridas do amor não correspondido. Muitos de nós carregamos mágoa por não termos recebido de pais, irmãos ou cuidadores o amor que julgávamos merecer. A palestrante convida a uma compreensão libertadora: cada um oferece aquilo que traz dentro de si, e ninguém pode dar o que não possui. Reavaliar essas cobranças é o começo da cura — e é também o caminho para superar a dependência emocional, esse hábito de entregar o próprio bem-estar às mãos de terceiros.
Segue-se então a parte mais prática do encontro, com seis recomendações para assumir o comando da própria jornada, e a imagem que atravessa toda a segunda metade da palestra: a do GPS que jamais condena o motorista pelo caminho errado, limitando-se a recalcular a rota. Errar o percurso não define quem somos. Reconhecer que saímos da rota não é fracasso, é humildade — e, enquanto houver amanhã, há tempo de ajustar a direção sem abandonar o objetivo.
Ao final, a palestrante retoma o tema do mês para afirmar que o autoamor atua na linha de frente da proteção emocional, oferecendo recursos internos diante do vazio existencial e da dor que parece não ter fim. Faz questão, porém, de estabelecer um limite claro e responsável: por mais indispensável que seja, essa força interna não substitui o tratamento médico e psicológico. Amar-se também significa reconhecer a hora de entregar o cuidado a profissionais capacitados. A escolha que permanece em nossas mãos, em qualquer circunstância, é a de continuar.
Referências doutrinárias: O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec — Parte Terceira, capítulo II, "Do suicídio", sobre as consequências espirituais da renúncia voluntária à vida e o dever de suportar as provas até o fim; Parte Terceira, capítulo X, "Da lei de liberdade", sobre o livre-arbítrio e a responsabilidade do espírito pelas próprias escolhas; e a questão 919, "Conhece-te a ti mesmo", que aponta o autoconhecimento como o meio prático mais eficaz de melhorar-se nesta existência; O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec — capítulo V, "Bem-aventurados os aflitos", sobre as provas voluntárias e involuntárias e o sentido regenerador do sofrimento, capítulo X, "Bem-aventurados os que são misericordiosos", sobre o perdão das ofensas como libertação de quem perdoa, e capítulo XI, "Amar o próximo como a si mesmo", fundamento evangélico para compreender que o cuidado consigo é medida e condição do amor ao próximo; e, entre as obras não espíritas citadas pela palestrante, Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.